DPOC: há outros fatores de risco, além do tabagismo

Dr. Vítor Fonseca

Pneumologia

DPOC: há outros fatores de risco, além do tabagismo

Em entrevista à Médico News, o Dr. Vítor Fonseca, coordenador de Pneumologia, do Hospital de Cascais, comentou os resultados de um recente estudo publicado na revista The Lancet sobre os principais fatores de risco e medidas de prevenção da doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), que é a atual terceira maior causa de morte em todo o mundo.

“Está bem estabelecida a relação entre a exposição ao fumo de tabaco e o desenvolvimento da DPOC, mas este estudo (Yang IA, et al.Lancet Chronic obstructive pulmonary disease in never-smokers: risk factors, pathogenesis, and implications for prevention and treatment.Lancet Respiratory Medicine.2022) veio alertar para a incidência crescente da DPOC na população não fumadora”, começou por afirmar o Dr. Vítor Fonseca.

Analisando os dados reportados, o pneumologista indicou que “entre 25-45 % da população mundial da população com DPOC são não fumadores”. No entanto, notou, “que os fumos de combustão de biomassa continuam a ser uma causa significativa de DPOC, sobretudo em países africanos e outros países em desenvolvimento, nos quais as famílias recorrem regularmente a esta prática para aquecimento das casas e para alimentação, poluindo assim o ar interior das casas e contribuindo para o desenvolvimento de DPOC”.

Segundo o pneumologista, o estudo identificou ainda outros fatores de risco emergentes preconizados nas guidelines da Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD) para a abordagem da desta patologia respiratória crónica, nomeadamente a exposição ocupacional, a poluição ambiental, que é cada vez mais dominante mesmo nos países desenvolvidos; e as doenças infeciosas que, quando ocorrem na infância, podem comprometer o desenvolvimento do pulmão e conduzir à DPOC na idade adulta. Acresce ainda a asma que, quando mal controlada, “pode levar ao remodelling das vias aérea, havendo um overlap das duas doenças”.

“Os doentes com DPOC não fumadores habitualmente têm sintomas mais ligeiros”, sublinhou o Dr. Vítor Fonseca, ressalvando, contudo, que “estes doentes estão sujeitos aos mesmos riscos que os doentes fumadores a nível do oncológico, exacerbações e evoluções não favoráveis da DPOC e, por esta razão, precisamos estar atentos e fazer o rastreio a todos aqueles que estejam expostos a estes fatores de risco”.

No que diz respeito à realidade portuguesa, o palestrante partilhou o exemplo dos “muitos doentes vítimas da tuberculose, uma infeção que condiciona alterações estruturais e obstruções brônquicas, mesmo 30 ou 40 anos após a infeção, que propiciam o desenvolvimento de bronquiectasias e eventualmente DPOC”.

Além da importância da cessação tabágica, o Dr. Vítor Fonseca alerta para “o papel da qualidade do ambiente, do ar e da melhoria das condições laborais e da vacinação contra as infeções respiratórias na prevenção da DPOC”. Neste sentido, o pneumologista fez um apelo ao “controlo da poluição e regulação das condições ambientais e laborais e de incentivo à prática desportiva”.

Em relação às medidas preventivas que podem ser aplicadas nos cuidados de saúde primários, o Dr. Vítor Fonseca realçou a importância do “rastreio de doenças respiratórias, com exames imagiológicos e espirometria, à semelhança do que já sucede rotineiramente com as doenças cardiovasculares e diabetes”.

“Se o utente estiver exposto aos fatores de risco para a DPOC, deve fazer o rastreio com exame radiologico e espirometria para a deteção precoce, mesmo na ausência de sintomas”, reforçou.

Neste contexto, o especialista propôs a “criação de uma consulta de patologia respiratória em cada Unidade de Saúde Familiar, para a qual seriam referenciados os doentes com asma e com DPOC”.“

“Esta medida implicaria o desenvolvimento da rede de espirometria a nível nacional que ainda não serve satisfatoriamente todos os centros”, conclui.

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