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	<title>Arquivo de Opinião - Médico News</title>
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	<description>Dar voz à experiência clínica dos profissionais de saúde no nosso país, através de depoimentos dos key opinion leaders das respetivas especialidades.</description>
	<lastBuildDate>Mon, 07 Sep 2026 09:44:59 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivo de Opinião - Médico News</title>
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	<item>
		<title>Sair do hospital para tratar em casa: uma viagem pela hospitalização domiciliária</title>
		<link>https://mediconews.pt/sair-do-hospital-para-tratar-em-casa-uma-viagem-pela-hospitalizacao-domiciliaria/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Joana Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Sep 2026 09:44:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em artigo de opinião assinado por <strong>Yahia Abuowda</strong>, assistente graduado de Medicina Interna e coordenador da Hospitalização Domiciliária na ULS Lezíria, o especialista reflete sobre a transformação e o valor humano desta modalidade assistencial no Serviço Nacional de Saúde. Coautor do livro "Hospitalização Domiciliária", o médico partilha a sua experiência no terreno, destacando o impacto do tratamento no domicílio na recuperação da autonomia dos doentes, a importância do trabalho multidisciplinar e os benefícios clínicos e de sustentabilidade que fundamentam a expansão deste modelo em Portugal.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Para um médico habituado às rotinas de um hospital, a ideia de sair da Enfermaria e tratar um doente em casa pode parecer, à primeira vista, um enorme desafio. Estamos moldados a um ambiente controlado e estruturado, onde sentimos que dominamos o território.</p>
<p>Quando comecei a trabalhar diariamente na hospitalização domiciliária senti o peso dessa mudança. Mas apaixonei-me por esta modalidade assistencial, que me obrigou a ver com outros olhos a própria essência do cuidar. Sair do hospital não significava perder segurança, mas sim aprender a cuidar de uma forma diferente.</p>
<p>Cruzar a soleira da porta de um doente é um exercício de humildade. Deixamos a nossa habitual zona de conforto e entramos num espaço que não é nosso. É precisamente aí, em casa, que encontramos a verdadeira zona de segurança de quem está doente: o seu espaço, os seus objetos, as suas rotinas, a sua família.</p>
<p>No domicílio, o tempo parece ganhar outra dimensão. Há espaço para ouvir com calma e para compreender aquilo que, no hospital, muitas vezes fica escondido atrás de uma cama, de uma bata e de um diagnóstico. Passamos a conhecer a pessoa além da doença. Percebemos como vive, quem está à sua volta e quais as dificuldades reais que podem comprometer o tratamento. Muitas vezes, uma simples conversa com o cuidador ou a observação de uma rotina familiar ensina-nos mais do que dezenas de perguntas feitas dentro de um gabinete ou numa Enfermaria isolada.</p>
<p>Por isso, o plano de cuidados deixa de ser apenas uma orientação escrita e passa a ser ativamente construído e negociado com o doente e o cuidador. É particularmente gratificante assistir à recuperação de alguém no seu lugar favorito. Vemos o doente ganhar forças na própria cama, voltar a alimentar-se à mesa com a família e recuperar progressivamente a sua autonomia. São conquistas que podem parecer pequenas, mas que, para quem esteve doente, têm um significado enorme.</p>
<p>Nada disto seria possível sem a equipa. A hospitalização domiciliária é, por definição, um trabalho coletivo, onde médicos, enfermeiros, assistentes sociais e outros profissionais de saúde partilham decisões em tempo real. Tenho o privilégio de integrar uma das equipas mais multidisciplinares e coesas que já conheci.</p>
<p>Porém, este modelo não vive apenas de histórias bonitas. Os resultados científicos mostram benefícios claros, como a redução de infeções associadas aos cuidados de saúde e a diminuição de reinternamentos, além de garantirem a sustentabilidade do sistema público. Mas a maior mudança não é mensurável: o modelo obriga-nos a adaptar o conhecimento médico à vida real do doente e não o contrário.</p>
<p>A hospitalização domiciliária coloca a tecnologia e a competência médica ao serviço de algo profundamente humano: permitir que o doente seja tratado com segurança sem deixar o lugar onde se sente em casa. É um modelo que veio para ficar e crescer no nosso país.</p>
<p>Continuo numa viagem de aprendizagem. Mas hoje sei que tratar não é apenas combater uma doença; é cuidar de uma pessoa. É uma viagem que começa quando saímos do hospital e que nos devolve à essência da medicina.</p>
<p>Para quem quiser aprofundar este modelo, o livro &#8220;Hospitalização Domiciliária&#8221; reúne o saber científico e prático desta transformação.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Como os dados do Inquérito Nacional de Saúde se traduzem no dia a dia da MGF</title>
		<link>https://mediconews.pt/como-os-dados-do-inquerito-nacional-de-saude-se-traduzem-no-dia-a-dia-da-mgf/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Joana Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 15:26:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em artigo de opinião, <strong>Inês Paulino</strong>, da ULS do Alentejo Central, analisa os mais recentes dados do Inquérito Nacional de Saúde. A partir do seu contacto diário no consultório, reflete sobre a elevada prevalência das dores lombares, o peso da hipertensão e do excesso de peso na população portuguesa, o impacto das assimetrias regionais e a missão da MGF na transformação dos hábitos de vida dos doentes.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O panorama apresentado pelos dados mais recentes do Inquérito Nacional de Saúde sobre o estado de saúde dos portugueses não é apenas preocupante para o já experiente médico de família. É particularmente inquietante para uma interna que iniciou há poucos meses a sua especialidade e que se depara, desde o primeiro momento, com uma realidade assustadora, profundamente enraizada e cuja mudança, embora possível, será necessariamente difícil e demorada.</p>
<p>De acordo com estes dados, as três principais doenças crónicas relatadas pelos portugueses com 15 ou mais anos, em 2025, foram as dores lombares, a hipertensão arterial e o colesterol elevado. As quais, em conjunto com o facto de 57,1% da população portuguesa ter excesso de peso ou obesidade, confirmam aquilo que já se vê e se sente diariamente nos Cuidados de Saúde Primários: sim, estamos perante uma população envelhecida, mas estamos também, e cada vez mais, perante jovens com doença crónica associada a um elevado nível de sedentarismo e múltiplos outros fatores de risco que tradicionalmente associávamos sobretudo ao avançar da idade.</p>
<p>Na minha, ainda que curta, experiência como interna de Medicina Geral e Familiar, o sintoma dor é, sem dúvida, um dos principais motivos que leva os utentes a procurar ajuda na Consulta Aberta. Os dados mais recentes do Inquérito Nacional de Saúde vêm a confirmar isto, demonstrando que 31,7% da população residente referiu dores lombares (ou outros problemas nas costas) como a sua principal doença crónica no ano de 2025. Em menor número, mas com percentagens também significativas estão as dores cervicais (ou outros problemas no pescoço) e a artrose, correspondendo a 21,6% e 19,0%, respetivamente, dos problemas de saúde dos portugueses.</p>
<p>Ao contrário da dor, que é um sintoma que se faz sentir e, por isso, motiva a procura de cuidados, patologias como a hipertensão, o colesterol elevado e o excesso de peso são muitas vezes problemas silenciosos, que não interferem de forma imediata com o quotidiano do utente. Por isso, para muitas pessoas é difícil compreender a importância de uma doença que não provoca sintomas, o que torna o nosso papel como linha da frente ainda mais exigente e cria um novo nível de dificuldade no diagnóstico e tratamento destas patologias.</p>
<p>A hipertensão arterial foi referida por 25,6% dos portugueses com 15 ou mais anos e o colesterol elevado por 23,8%. Em relação à hipertensão, os dados demonstram que é uma patologia prevalente em todo o país, porém o Alentejo surge como a 2.ª região com valores mais elevados, um dado que me chama particularmente a atenção enquanto interna a trabalhar no Alentejo Central. Nestes primeiros 7 meses de internato, tenho-me questionado bastante sobre o modo como os contextos sociais, culturais, económicos e geográficos podem influenciar a forma como uma doença é vivida, diagnosticada e controlada.</p>
<p>Também o excesso de peso e a obesidade devem ser encarados como problemas de saúde e não apenas como questões individuais de aparência. Em 2025, 39,7% da população com 18 ou mais anos apresentavam pré-obesidade e 17,4% obesidade. Estes valores representam um importante fator de risco para várias doenças, como hipertensão, diabetes, doença cardiovascular e problemas osteoarticulares, mas representam também pessoas que podem ter uma relação difícil com a alimentação, experiências repetidas de insucesso, baixa autoestima ou condições de vida que tornam muito difícil a adoção de hábitos mais saudáveis.</p>
<p>Os restantes dados ajudam a compreender a dimensão do problema. Apenas cerca de 40,6% dos portugueses com 15 anos ou mais referiram consumir legumes ou saladas diariamente e a maioria (53,4%) afirmou não praticar regularmente qualquer exercício físico. Para além disso, 68,9% indicaram ter consumido bebidas alcoólicas nos últimos 12 meses, dos quais 40,6% eram consumidores regulares das mesmas e 14,6% eram fumadores, sendo que a maioria destes se encontram nos grupos etários dos 25 aos 64 anos.</p>
<p>Perante todos estes dados, por mais assustadores que possam parecer, o papel do médico de família é não só essencial, mas verdadeiramente vital. Estes resultados não são apenas números numa folha, representam pessoas concretas, com histórias, expectativas, dificuldades e contextos próprios, que merecem ser cuidadas como um todo e não reduzidas à sua patologia: um dos pilares fundamentais da Medicina Geral e Familiar.</p>
<p>O médico de família não se limita a medir a pressão arterial, verificar os níveis de colesterol ou avaliar o peso. Acompanha a pessoa nas suas múltiplas dimensões: enquanto indivíduo, membro de uma família e elemento de uma comunidade. É nesta visão integrada, longitudinal e necessariamente complexa que reside grande parte do valor da Medicina Geral e Familiar.</p>
<p>Começar o internato perante este retrato do país é, simultaneamente, assustador e motivador. Assustador porque revela a dimensão do desafio que temos pela frente, motivador porque demonstra a importância concreta da especialidade que escolhi. Na consulta, os grandes números transformam-se em pessoas: o utente que vive com dor há anos, a mulher com obesidade que já perdeu a esperança de conseguir mudar, o homem com hipertensão que não se sente doente, o jovem sedentário que começa a acumular fatores de risco.</p>
<p>É com essas pessoas, através de um acompanhamento planeado, de decisões partilhadas e de pequenas mudanças possíveis, que estes dados poderão começar a melhorar. A Medicina Geral e Familiar não conseguirá resolver sozinha todos os problemas de saúde dos portugueses, mas tem uma posição privilegiada para os reconhecer, integrar e acompanhar. Enquanto interna, começo agora a perceber que cuidar não é apenas tratar a doença quando ela aparece, é também ajudar cada pessoa a construir, dentro das suas possibilidades, um caminho mais saudável e sustentável para o seu presente e futuro.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Serviço de Anatomia Patológica: dados reais da implementação do teste M371® no IPO Porto</title>
		<link>https://mediconews.pt/servico-de-anatomia-patologica-dados-reais-da-implementacao-do-teste-m371-no-ipo-porto/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Joana Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Aug 2026 08:58:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em artigo de opinião a propósito da sua participação no Congresso da ASCO 2026,<strong> João Pedro Lobo</strong> analisa os dados de vida real da implementação do teste M371® no IPO Porto. O médico especialista e investigador do Serviço de Anatomia Patológica detalha como a introdução deste novo biomarcador circulante em biópsia líquida (microRNA-371a-3p) está a revolucionar o diagnóstico, a estratificação de risco e a monitorização de doentes com tumores de células germinativas do testículo, apresentando uma sensibilidade e especificidade de 96%, significativamente superiores às dos marcadores séricos clássicos.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O cancro do testículo é uma doença rara na população geral, mas que representa a neoplasia sólida mais comum nos homens adultos-jovens com idades compreendidas entre os 15-35 anos. A vasta maioria (&gt;90%) dos tumores testiculares tem origem nas células germinativas, sendo por isso designados tumores de células germinativas (TCGs). Apesar da excelente sobrevida, em parte fruto de uma boa resposta ao tratamento sistémico com quimioterapia, continuam a existir desafios na abordagem destes doentes. Por um lado, o diagnóstico definitivo de um TCG apenas é possível após o exame anátomo-patológico da peça de orquidectomia, não havendo lugar a biópsia diagnóstica. Após confirmação da presença de uma massa testicular através do exame físico e ecografia escrotal, são solicitados os biomarcadores séricos “clássicos” – alfafetoproteína (AFP), beta-HCG (HCG) e lactato desidrogenase (LDH). Contudo, estes marcadores apresentam limitações: estão elevados em apenas cerca de 50-60% dos doentes ao diagnóstico; são dependentes da composição histológica do TCG, sendo negativos na maioria dos seminomas, carcinomas embrionários e teratomas; e apresentam baixa especificidade, podendo encontrar-se elevados em outras situações clínicas. Por outro lado, um dos maiores desafios atuais prende-se com o sobretratamento dos doentes, com enorme impacto na qualidade de vida futura destes jovens. Mais uma vez, os biomarcadores “clássicos” apresentam limitações na estratificação de risco e monitorização dos doentes durante o seu seguimento. Assim, são necessários novos biomarcadores não invasivos, pesquisáveis em biópsia líquida, capazes de sinalizar a presença de TCG com elevada sensibilidade e especificidade, melhorando o diagnóstico, a estratificação de risco e a monitorização dos doentes para deteção atempada de recidivas.</p>
<p>Os microRNAs são segmentos curtos de RNA não codificante muito estáveis em circulação e com uma semivida muito curta, tornando-os biomarcadores apelativos para utilização em biópsias líquidas. Nos últimos anos, os microRNAs do cluster 371~373 afirmaram-se como excelentes biomarcadores circulantes para doentes com TCGs, com vários estudos retrospectivos, e também prospectivos e multicêntricos, a mostrar sensibilidade e especificidade na deteção de TCGs não teratomatosos superiores a 90%, ultrapassando a performance combinada dos biomarcadores séricos “clássicos”.</p>
<p>Recentemente, o microRNA-371a-3p começou a ser comercializado sob a forma de um teste com aprovação CE-IVDR – o teste M371®. Trata-se de um teste realizado em amostras de sangue (soro), com uma metodologia simples baseada em PCR em tempo real. Desde agosto de 2024, o teste M371® é realizado aos doentes com massas testiculares e aos doentes com TCGs do Instituto Português de Oncologia do Porto (IPO Porto). O teste é realizado por rotina e integralmente no Laboratório de Patologia Molecular do nosso Serviço de Anatomia Patológica, com emissão de relatório e constituindo um dado adicional para discussão em consulta de grupo multidisciplinar. Esta iniciativa é fruto da colaboração estreita entre o Serviço de Anatomia Patológica, a Clínica de Urologia, a Central de Colheitas e o Grupo de Epigenética e Biologia do Cancro do Centro de Investigação. Até à data, foram realizados no nosso Serviço de Anatomia Patológica um total de 300 testes. No passado mês de maio, apresentei o panorama de resultados dos primeiros 128 testes M371® realizados no IPO Porto na reunião anual da <em>American Society of Clinical Oncology</em> (ASCO).</p>
<p>O teste foi realizado em diversos contextos e fases da doença, incluindo pré-orquidectomia; durante o seguimento de doentes em estadio I; antes e durante o curso de tratamento sistémico com quimioterapia; e antes/após linfadenectomia retroperitoneal. O tempo mediano de resposta (desde a colheita da amostra até disponibilizar o relatório com o resultado do teste) foi de 5,6 dias. Em cada momento de colheita de sangue para o teste M371®, foi também colhida amostra para quantificação dos biomarcadores séricos “clássicos” (AFP, HCG e LDH). O teste M371® teve uma sensibilidade de 96% e uma especificidade de 96% para deteção de TCG no nosso universo de doentes do IPO Porto. Em particular, a sensibilidade do teste M371® foi superior à da AFP (43%), da HCG (57%), da LDH (37%), e ainda da combinação AFP+HCG+LDH (80%).</p>
<p>Em conclusão, foi comprovada a performance superior do teste M371® face aos biomarcadores séricos “clássicos” para deteção de TCGs no nosso universo de doentes. São dados promissores, que suportam a implementação deste teste na prática clínica, de forma integrada com os restantes dados analíticos e imagiológicos. A capacidade do microRNA-371a-3p para detectar presença de TCG em contextos onde os marcadores séricos clássicos falham torna-o um marcador atrativo, especialmente tendo em conta a relativa simplicidade metodológica e tecnológica do teste.</p>
<p>Os primeiros resultados dos ensaios clínicos baseados no microRNA-371a-3p (um deles apresentado também na ASCO 2026) demonstraram o potencial deste biomarcador também na estratificação de risco dos doentes em estadio I, com valor preditivo da recidiva em doentes com seminomas e tumores não seminomatosos. Assim, como perspectiva futura, pretendemos avaliar o uso do teste M371® nesta estratificação de risco, de maneira integrada com os biomarcadores séricos “clássicos” e as variáveis histopatológicas com valor prognóstico. Estamos a trabalhar igualmente num domínio mais técnico do teste, fazendo uma comparação entre amostras pareadas de soro e plasma, na tentativa de perceber qual destas matrizes derivadas do sangue é mais adequada para a realização do teste, permitindo obter a melhor <em>performance</em> possível. Por último, o microRNA-371a-3p não consegue detectar especificamente a histologia de teratoma, razão pela qual estamos a trabalhar na descoberta de novos biomarcadores circulantes que permitam discriminar este subtipo histológico em particular.</p>
<p>De uma maneira geral, o teste tem o potencial de permitir uma redução da frequência e intensidade do <em>follow-up</em>, com redução da frequência de exames de imagem e exposição a radiação, melhorando a qualidade de vida dos doentes e permitindo redução dos custos em saúde. O alto valor preditivo negativo traz o potencial de permitir a manutenção dos doentes em vigilância ativa, reduzindo o sobretratamento e, em consequência, reduzindo a toxicidade do mesmo a curto e longo prazo. Em suma, acredito que a introdução do teste M371® traduz um passo em frente na obtenção de cuidados mais personalizados oferecidos aos doentes com cancro do testículo.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Quando um problema da consulta se transforma num projeto tecnológico</title>
		<link>https://mediconews.pt/quando-um-problema-da-consulta-se-transforma-num-projeto-tecnologico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Joana Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Aug 2026 11:29:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Poderá a tecnologia acompanhar a saúde menstrual sem transformar dados íntimos num produto comercial? A propósito das limitações e riscos de privacidade observados na maioria das aplicações do mercado, o ginecologista-obstetra e especialista em Medicina da Reprodução <strong>Ricardo Santos</strong> (ULS Alto Ave) assina um artigo de opinião sobre o desenvolvimento da aplicação CycleTracker. O médico e especialista em Informática Médica explica como concebeu uma ferramenta digital de registo menstrual focada exclusivamente na segurança dos dados da utilizadora, na utilidade para a consulta médica e no rigor clínico, livre de publicidade ou recolha de informação.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Sou especialista em Medicina da Reprodução. O ciclo menstrual é algo que faz parte do meu quotidiano, e que valorizo muito, pela importância que tem no meu trabalho. Acresce que aplicações de acompanhamento do ciclo menstrual já fazem parte do quotidiano de muitas mulheres. Contudo, nem sempre foram concebidas com prioridades clínicas: podem apresentar previsões com uma segurança excessiva, incluir publicidade em momentos particularmente sensíveis ou recolher informação que ultrapassa largamente o necessário. Por isto, quis explorar uma alternativa: uma aplicação útil, clinicamente responsável e que não precisasse de transformar dados íntimos num produto.</p>
<p>A ideia para a CycleTracker nasceu, antes de tudo, da prática clínica. Em consulta, é frequente as doentes recorrerem ao telemóvel para tentar reconstruir a sua história menstrual: quando começou a última menstruação, qual tem sido a duração dos ciclos, se existe <em>spotting</em> recorrente, em que dias surgiram determinados sintomas ou quando foi realizado um teste de ovulação. Muitas já utilizam uma aplicação, mas a informação nem sempre é fácil de interpretar ou partilhar.</p>
<p>Já tive doentes que, de tanto rigor, tinham calendários menstruais complexos em folhas de excel (uma que me estou a lembrar era engenheira, e de um rigor com os registos que faria inveja a muitas aplicações dedicadas). Mas mais do que uma vez, tive de esperar que uma doente visse um anúncio antes que a aplicação instalada no seu dispositivo carregasse os seus ciclos, e, como apaixonado pela tecnologia que sou, sei que a esmagadora maioria das aplicações gratuitas vivem dos dados de quem as usa (não existem “refeições grátis”). Estes momentos tornaram mais evidente uma preocupação já antiga: não faltavam calendários menstruais, mas faltava uma ferramenta que eu pudesse recomendar sem reservas. Queria algo simples, sem publicidade e sem distrações, mas também sem previsões apresentadas como certezas ou mecanismos invisíveis de recolha de dados.</p>
<p>O objetivo não foi, portanto, criar “mais uma aplicação”. Foi tentar responder a uma pergunta clínica e ética: como deve funcionar uma ferramenta de saúde menstrual quando o seu primeiro compromisso é com a utilizadora?</p>
<p>O projeto surgiu também de um percurso pessoal situado entre várias áreas. Sou ginecologista-obstetra, com subespecialidade em Medicina da Reprodução, mestre em Informática Médica e doutorado em Investigação Clínica e Serviços de Saúde. A atividade clínica permite-me identificar problemas concretos; a formação científica obriga-me a questionar a validade das soluções; e a experiência tecnológica dá-me a possibilidade de transformar algumas dessas ideias em ferramentas utilizáveis.</p>
<p>Comecei o desenvolvimento da CycleTracker nas minhas férias de 2025. A conceção clínica, a definição das funcionalidades e todo o desenvolvimento tecnológico foram realizados por mim, num processo muito iterativo, com auxílio de várias ferramentas de programação e inteligência artificial. Estas ferramentas libertaram o lado da execução, colocando enfâse nas ideias. Se uma ideia é boa, pode ser bem aplicada, em tempo real. Criar, testar, criticar, resolver, criar, testar… num processo circular extremamente rápido e satisfatório.</p>
<p>Uma das principais aprendizagens nesta área, e já de há vários anos (2017), quando criei a minha primeira aplicação (na altura publicada apenas para Android), foi perceber que a parte mais difícil raramente é desenhar um calendário ou criar um botão. As decisões verdadeiramente complexas estão por detrás da interface: o que deve ser considerado o início de um ciclo? Como interpretar ciclos irregulares? Como lidar com valores extremos sem apagar informação relevante? Como distinguir uma estimativa baseada em vários ciclos de outra baseada apenas numa média populacional? Estas são simultaneamente perguntas clínicas e tecnológicas.</p>
<p>A aplicação foi construída para iOS e Android a partir de uma base comum (Flutter). Permite registar menstruação, <em>spotting</em>, sintomas, relações sexuais, temperatura basal e testes de ovulação, analisar padrões e produzir estimativas adaptadas ao histórico individual. O desenvolvimento incluiu testes com diferentes tipos de ciclo, validação de importações e exportações e atenção a situações menos “arrumadas” do que os exemplos ideais habitualmente apresentados num calendário. É um trabalho em curso, que vou corrigindo, acrescentando funcionalidades e melhorias.</p>
<p>Os dados de saúde reprodutiva estão entre os dados mais íntimos que uma pessoa pode registar. Podem incluir informação sobre menstruação, atividade sexual, tentativas de gravidez, sintomas, testes de ovulação ou suspeitas de doença. Por isso, a privacidade da CycleTracker foi definida desde o início como uma característica estrutural. A aplicação não exige conta ou registo. Não possui uma base de dados central nem envia os registos para servidores próprios. Os dados permanecem no dispositivo e a aplicação pode funcionar <em>offline</em>. Não inclui publicidade, identificadores publicitários, serviços de análise de comportamento ou mecanismos de rastreamento de terceiros. O acesso pode ser protegido através de autenticação biométrica.</p>
<p>A integração com a Apple Health ou o Health Connect é opcional, requer uma ação explícita da utilizadora e pode ser revogada. Não deve existir uma partilha automática ou pouco compreensível de informação tão sensível.</p>
<p>Naturalmente, esta opção tem custos. Sem telemetria, não consigo observar à distância como cada pessoa utiliza a aplicação ou em que ponto abandona uma determinada tarefa. Sem uma conta central e sincronização automática na nuvem, as cópias de segurança e a transferência de dados têm de ser escolhas mais conscientes. A evolução da aplicação depende mais do contacto voluntário das utilizadoras e dos profissionais. Estas limitações são coerentes com o propósito do projeto. Aquilo que não é recolhido não pode ser vendido, explorado para publicidade ou exposto numa falha de um servidor. Isto não elimina todos os riscos digitais, mas reduz significativamente a superfície de exposição.</p>
<p>A ausência de publicidade pode parecer apenas uma opção estética. Na realidade, é também uma escolha sobre o modelo de relação entre a aplicação e a utilizadora. Uma ferramenta de saúde não deve ter interesse em prolongar artificialmente o tempo de utilização, aumentar o número de notificações ou transformar sintomas e receios em oportunidades de envolvimento comercial. O objetivo não é manter a mulher dentro da aplicação. É permitir-lhe registar o que precisa, compreender a informação e continuar o seu dia.</p>
<p>A CycleTracker é uma ferramenta de registo e apoio à compreensão do ciclo. Não substitui uma consulta, não estabelece diagnósticos e as estimativas de fertilidade não devem ser utilizadas isoladamente como método contracetivo.</p>
<p>Quando uma doente consegue apresentar uma sequência organizada dos ciclos, sintomas, episódios de <em>spotting</em> ou resultados de testes de ovulação, a conversa torna-se mais concreta. Reduz-se a dependência da memória e torna-se mais fácil identificar padrões, formular perguntas e decidir se é necessária investigação adicional.</p>
<p>A aplicação permite também exportar informação para cópia de segurança ou partilha deliberada. O objetivo não é substituir a história clínica, mas facilitar a passagem entre o registo quotidiano da mulher e uma conversa clínica contextualizada.</p>
<p>Desde a publicação inicial (abril de 2026), cerca de 130 instalações foram realizadas. Devemos ter em conta que esta é uma aplicação que só corre boca-a-boca (não está nunca nos lugares cimeiros em pesquisas, dado o seu curto histórico).</p>
<p>Uma aplicação clinicamente responsável deve reconhecer quando não possui dados suficientes, explicar a incerteza das suas estimativas, proteger informação sensível e encaminhar para avaliação clínica quando apropriado. Deve ser tecnicamente competente, mas também discreta.</p>
<p>Gostaria que o sucesso deste projeto não fosse medido apenas pelo número de instalações ou pelo tempo passado na aplicação. Para mim, os indicadores mais relevantes são outros: se ajuda uma mulher a compreender melhor o seu ciclo, a engravidar com mais facilidade, se lhe dá maior controlo sobre os próprios dados e se permite que uma consulta comece com informação mais clara.</p>
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		<title>Entre o alerta global e o compromisso nacional, construir o futuro da Oncologia em Portugal</title>
		<link>https://mediconews.pt/entre-o-alerta-global-e-o-compromisso-nacional-construir-o-futuro-da-oncologia-em-portugal/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Joana Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Aug 2026 10:56:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://mediconews.pt/?p=46660</guid>

					<description><![CDATA[<p>Perante o novo relatório da Organização Mundial da Saúde “Global Status Report on Cancer 2026”, que projeta que os novos casos de cancro possam quase duplicar até 2050, o presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), <strong>Nuno Bonito</strong>, assina um artigo de opinião sobre a urgência de uma resposta estrutural em Portugal. O especialista defende o reforço da prevenção e da equidade no acesso aos cuidados, alertando ainda para os atrasos na inovação terapêutica no país — onde o tempo médio de espera pelos novos fármacos atinge os 846 dias. Conheça a perspetiva do especialista.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O recente relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) constitui um importante sinal de alerta que não podemos ignorar. A projeção de que os novos casos de cancro possam quase duplicar até 2050, atingindo os 35 milhões, coloca-nos perante um desafio geracional que exige uma resposta estrutural, sustentada e ambiciosa.</p>
<p>A escala deste fardo é crítica na Europa: embora representemos apenas 9% da população mundial, suportamos 20,9% dos novos diagnósticos e 20% das mortes globais. O contraste entre o progresso da Europa Ocidental e os desafios da Europa de Leste confirma que a equidade no acesso aos cuidados continua a ser uma falha estrutural.</p>
<p>Em Portugal, a nossa realidade exige uma otimização profunda. Embora nos situemos num nível intermédio de despesa em saúde — comparável a países como a Grécia e a Finlândia — o investimento não garante resultados por si só. Os dados sobre o padrão de cuidados cirúrgicos no cancro da mama na região Sul do país, onde a taxa de cumprimento da cirurgia conservadora combinada com radioterapia se situa apenas entre os 40% e 50%, demonstram que temos uma margem crítica para uniformizar a qualidade clínica em todo o território nacional.</p>
<p>Não é possível falar de uma estratégia eficaz para o controlo do cancro sem colocar a prevenção no centro da agenda política. O relatório da OMS é claro: quase quatros em cada dez casos de cancro estão associados a fatores de risco evitáveis, como o consumo de tabaco e álcool, a inatividade física, a obesidade, a exposição a infeções, nomeadamente HPV e hepatites, e a poluição ambiental.</p>
<p>Os progressos alcançados demonstram que as políticas de Saúde Pública produzem resultados. A redução de 27% no consumo de tabaco desde 2010 e o impacto dos programas de vacinação são exemplos concretos desse sucesso.</p>
<p>Contudo, a dimensão do desafio exige um investimento robusto e estratégico em prevenção, devidamente estruturado em seis níveis de intervenção: em seis níveis de prevenção integrados: primordial (políticas públicas promotoras de saúde), primária (controlo de fatores de risco), secundária (rastreio e diagnóstico precoce), terciária (tratamento eficaz e reabilitação), quaternária (prevenção do sobretratamento) e quinquenária (valorização e bem-estar dos profissionais de saúde). Esta abordagem transversal é essencial para reduzir a incidência da doença, otimizar resultados clínicos e assegurar a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde a longo prazo.</p>
<p>A nossa visão converge com a defesa de uma abordagem verdadeiramente centrada nas pessoas. O sucesso da resposta oncológica não pode ser avaliado apenas pelo volume de atividade. É essencial incorporar indicadores que reflitam aquilo que realmente importa para os doentes: qualidade de vida (PROM), experiência dos cuidados (PREM) e sobrevivência ajustada ao risco. Quando a OMS defende a integração do controlo do cancro na Cobertura Universal de Saúde, Portugal deve aproveitar essa oportunidade para reforçar a coordenação dos percursos assistenciais, nomeadamente através de uma Via Verde do Doente Oncológico. O doente deve beneficiar de circuitos ágeis, diferenciados e articulados ao longo de todo o percurso de cuidados.</p>
<p>Persistem, contudo, desafios importantes no acesso à inovação. Apesar de Portugal apresentar uma disponibilidade de medicamentos oncológicos superior à média europeia, o tempo médio até ao acesso pelos doentes — 846 dias — continua significativamente acima da média europeia de 586 dias, de acordo com o EFPIA Patients W.A.I.T. Indicator 2024. A sustentabilidade do SNS deve ser construída através da maximização dos ganhos em saúde, assegurando um acesso atempado, equitativo e sustentável à inovação. Neste contexto, modelos de pagamento baseados em resultados (<em>payment by results</em>) constituem uma oportunidade para alinhar investimento e valor gerado para os doentes.</p>
<p>A Oncologia portuguesa deve ter condições para liderar. A obrigatoriedade da multidisciplinaridade — com molecular tumor boards e a coordenação central do oncologista médico — e a integração dos cuidados paliativos não são luxos, são necessidades clínicas para melhorar prognósticos.</p>
<p>Como presidente da SPO, reitero o nosso compromisso: não nos limitaremos a observar estatísticas. Trabalharemos ativamente, em co-criação com os decisores políticos, para que Portugal não apenas responda ao aumento dos casos, mas lidere com competência técnica, equidade e uma profunda humanização. O futuro da Oncologia escreve-se na qualidade das nossas escolhas políticas e na nossa capacidade de colocar o doente no centro.</p>
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		<title>Hepatites: prevenir, diagnosticar e tratar</title>
		<link>https://mediconews.pt/hepatites-prevenir-diagnosticar-e-tratar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Joana Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Jul 2026 11:20:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://mediconews.pt/?p=46592</guid>

					<description><![CDATA[<p>Um teste simples ao sangue pode salvar vidas e prevenir doenças graves do fígado. A propósito do Dia Mundial da Hepatite, a coordenadora do Núcleo de Estudos das Doenças do Fígado da SPMI, <strong>Suzana Calretas</strong>, assina um artigo de opinião em que alerta para o caráter silencioso das hepatites virais B e C. A especialista recorda as metas da OMS para a eliminação destas infeções até 2030 e destaca o papel crucial da prevenção, da vacinação e do rastreio precoce para evitar a progressão para cirrose e cancro do fígado.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Anualmente celebra-se o Dia Mundial da Hepatite, data escolhida em homenagem a Barush Blumberg, o cientista vencedor do Prémio Nobel que descobriu o vírus da hepatite B.</p>
<p>O termo hepatite refere-se genericamente a uma inflamação do fígado. Um nome simples, para uma realidade que pode tornar-se muito complexa. Esta inflamação pode ter causas diversas tais como o álcool, doenças autoimunes, acumulação excessiva de gordura ou certos medicamentos, destacando-se pela sua frequência e pelo impacto que têm a nível mundial, os vírus. Das hepatites virais, os vírus da hepatite B e C que assumem grande relevância, pela sua capacidade de evoluir para doença crónica e progredir silenciosamente para formas graves de doença hepática, nomeadamente fibrose avançada (cirrose) com insuficiência hepática e aumento do risco de cancro do fígado.</p>
<p>A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabeleceu como objetivos eliminar as hepatites virais B e C como ameaça à Saúde Publica até 2030, focando-se em duas metas principais: a redução de novas infeções em 80% e a redução da mortalidade em 65%.</p>
<p>Para que isso aconteça, é preciso agir em três frentes: prevenir, diagnosticar e tratar.</p>
<p>Prevenir: conhecer as formas de transmissão é um dos passos mais importantes para prevenir a doença. No caso da hepatite B, a via mais comum é o contacto sexual desprotegido; também se pode transmitir pela partilha de objetos de uso pessoal que possam ter vestígios de sangue, como escovas de dentes ou laminas de barbear, pelo uso de agulhas, seringas ou instrumentos mal esterilizados em contexto médico, dentário, de tatuagens ou <em>piercings</em>, e de mãe para filho durante o parto. A hepatite C transmite-se essencialmente pelo sangue, bastando uma quantidade mínima de sangue contaminado para que o vírus passe de uma pessoa para outra – através da partilha de seringas, de instrumentos cortantes ou perfurantes não esterilizados, ou de qualquer ferida em contacto com sangue infetado; a transmissão sexual é rara.  É também de realçar que nenhum destes vírus é transmitido por contactos sociais quotidianos. Partilhar refeições, dar um abraço ou um aperto de mão não representa qualquer risco. Ainda no capítulo da prevenção, de referir que apesar de não existir ainda não existir vacina para a hepatite C, ela existe para a hepatite B, e é segura e eficaz; em Portugal está incluída no Plano Nacional de Vacinação desde 1994.</p>
<p>Diagnosticar: contraída a infeção, importa fazer um diagnóstico tão precoce quanto possível. Sabe-se que uma parte significativa dos infetados ignora que tem a doença – porque nunca foi rastreada ou porque nunca teve sintomas. Uma simples analise ao sangue é suficiente. O programa nacional para as hepatites virais preconiza a inclusão da análise ALT (alanina aminotransferase) na avaliação global de saúde e propõe a realização do teste da hepatite B e C pelo menos uma vez na vida.</p>
<p>Tratar: o tratamento das hepatites B e C evoluiu de forma notável nas últimas décadas. A hepatite C é hoje uma doença curável com a toma de comprimidos entre 8 e 12 semanas, eliminando o vírus em mais de 95% dos casos.  Já na hepatite B, embora não exista atualmente um tratamento que elimine completamente o vírus, existem medicamentos que conseguem controlá-lo de forma muito eficaz, reduzindo o risco de lesão do fígado.</p>
<p>Quando a inflamação do fígado se mantém durante muitos anos, o tecido saudável vai sendo progressivamente substituído por tecido cicatricial – a fibrose. À medida que esta cicatrização aumenta, o fígado perde a capacidade de desempenhar as suas funções normais. Nos casos mais avançados desenvolve-se cirrose que pode ter complicações graves, desde a acumulação de líquido abdominal (ascite) até ao cancro do fígado.</p>
<p>A prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento alteram drasticamente este processo. Portugal criou o Programa Nacional para as Hepatites Virais em 2016, e o nosso país é hoje um exemplo internacional de boas práticas nesta área.</p>
<p>Neste dia, a mensagem é simples: conhecer as hepatites é o primeiro passo para as prevenir; uma vacina pode evitar uma doença grave; um teste simples pode fazer a diferença &#8211; fale com o seu médico.</p>
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		<title>O que cura as pessoas não pode adoecer a natureza</title>
		<link>https://mediconews.pt/o-que-cura-as-pessoas-nao-pode-adoecer-a-natureza/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Joana Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Jul 2026 09:42:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://mediconews.pt/?p=46555</guid>

					<description><![CDATA[<p>O incorreto descarte de medicamentos fora de uso representa uma ameaça silenciosa para a Saúde Pública e para a contaminação dos ecossistemas. A propósito do Dia Nacional da Conservação da Natureza, o diretor-geral da VALORMED, <strong>Luís Figueiredo</strong>, assina um artigo de opinião, no qual alerta para os riscos ecológicos dos resíduos farmacêuticos nos solos e nos cursos de água, sublinhando o papel fundamental da triagem doméstica e da entrega destes produtos na rede nacional de farmácias.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Anualmente, a 28 de julho, Portugal assinala o Dia Nacional da Conservação da Natureza. Trata-se de uma data que nos convida a contemplar e a valorizar o nosso património natural, desde os rios e florestas até à riqueza única da nossa biodiversidade. Contudo, tendemos a associar frequentemente a conservação a grandes decisões políticas, missões científicas ou acções de grande escala em parques naturais protegidos, quando, na verdade, a protecção do ambiente começa muito mais perto de nós: na nossa rotina diária e dentro das nossas próprias casas.</p>
<p>Se pensarmos no conceito de reduzir a pegada ecológica, lembramo-nos imediatamente de separar o plástico, de poupar água ou de reduzir o consumo de eletricidade. Mas existe um agente poluidor silencioso que, com demasiada frequência, escapa ao nosso radar ambiental: os medicamentos fora de uso</p>
<p>O destino que damos a um resto de xarope ou a um blister com alguns comprimidos   fora de uso ou de prazo não é um detalhe insignificante. Se forem descartados no lixo indiferenciado ou despejados na canalização, estes resíduos contaminam os solos e os lençóis freáticos com substâncias químicas biologicamente ativas. Além disso, afetam gravemente a fauna e a flora, uma vez que as estações de tratamento de águas residuais urbanas não foram desenhadas nem estão preparadas para eliminar totalmente compostos farmacêuticos, o que acaba por ameaçar a biodiversidade através de desequilíbrios na reprodução e no comportamento de várias espécies aquáticas e terrestres. Proteger a natureza exige, por isso, que olhemos para os resíduos de saúde com o mesmo rigor e responsabilidade com que olhamos para o plástico, o vidro ou o papel.</p>
<p>Para que a conservação da natureza seja uma realidade tangível, precisamos de converter esta intenção num hábito consolidado. O circuito que criámos na Valormed assenta precisamente numa lógica de facilidade e proximidade, apoiado numa rede nacional de mais de 3.600 pontos de recolha (entre farmácias e locais de venda de medicamentos não sujeitos a receita médica) distribuídos por todo o país. Basta ao cidadão juntar os medicamentos de uso humano ou veterinário que já não utiliza, bem como as embalagens vazias, os respetivos folhetos e acessórios que possam ter ajudado na sua administração (como as colheres e copos-medida, cânulas, etc.) e entregá-los no ponto de recolha mais próximo. Não se trata de um processo burocrático ou complexo, mas sim de um gesto simples, gratuito e de enorme alcance cívico. No Dia Nacional da Conservação da Natureza, a Valormed reforça que cuidar do ambiente passa pelas decisões do dia a dia, incluindo o destino dado aos medicamentos.</p>
<p>Esta atitude reflecte também uma visão mais ampla de saúde e sustentabilidade, assente no princípio de que a saúde humana, animal e ambiental estão profundamente interligadas. Não podemos ambicionar ter comunidades saudáveis e resilientes se os ecossistemas que nos rodeiam e nos sustentam estiverem doentes ou contaminados. Ao fecharmos o ciclo de vida dos medicamentos de forma segura através dos canais correctos, como este, estamos a assumir uma responsabilidade colectiva e a garantir que aquilo que foi desenvolvido para tratar e curar as pessoas não se transforma, por negligência, numa fonte de poluição e degradação. É, acima de tudo, um acto de respeito e reciprocidade para com o planeta.</p>
<p>A entrega correcta destes resíduos garante que os mesmos seguem para uma triagem e tratamento adequados. Graças à adesão dos portugueses, este sistema permitiu-nos recolher e processar em 2025 cerca de 1.400 toneladas de resíduos de embalagens e medicamentos, que foram encaminhados para reciclagem (papel/cartão, plástico, vidro) e incineração com valorização energética os restantes resíduos, minimizando o impacto ambiental e evitando a sua entrada na cadeia alimentar e poluição dos recursos de que todos dependemos.</p>
<p>Neste dia comemorativo, o convite que deixamos a todos os portugueses é o de abrirem o seu armário de medicamentos, fazerem uma triagem responsável e adoptarem este comportamento como parte do seu compromisso diário com o planeta. A conservação da nossa biodiversidade e a protecção da nossa Saúde Pública agradecem, assegurando que as gerações futuras herdarão um país biologicamente rico e preservado.</p>
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		<item>
		<title>Mais de metade dos diabéticos falham metas de LDL</title>
		<link>https://mediconews.pt/mais-de-metade-dos-diabeticos-falham-metas-de-ldl/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Joana Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Jul 2026 08:52:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mais de metade dos doentes com diabetes tipo 2 seguidos numa unidade de saúde familiar não atingiam os valores-alvo de LDL-C, apesar do reconhecido risco cardiovascular acrescido desta população. O dado resulta de um estudo português publicado na Revista Portuguesa de Cardiologia, que indica falhas de prescrição, subutilização terapêutica e barreiras económicas. Em entrevista, o coautor do estudo <strong>André Cunha</strong>, especialista em Medicina Geral e Familiar da USF Renascer, explica os principais sinais de alerta. Veja a entrevista.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Segundo o médico, não há uma causa única. Há doentes sem qualquer terapêutica hipolipemiante, incluindo pessoas classificadas de risco alto e muito alto, e há outros medicados com estatinas de intensidade insuficiente para atingir as metas recomendadas.</p>
<p>O trabalho avaliou 245 pessoas com diabetes entre os 40 e os 69 anos. Em 59,2% dos casos, o LDL-C estava acima do alvo. Entre estes doentes, 27,6% não recebiam qualquer terapêutica redutora de lípidos. Apenas 9% estavam tratados com estatinas de alta intensidade, isoladas ou associadas a ezetimiba.</p>
<p>Para André Cunha, existe também um problema de adesão: persistem mitos sobre as estatinas, alimentados por fontes pouco credíveis, que levam alguns doentes a recusar tratamento.</p>
<p>Outro obstáculo é o custo. Na opinião do médico, a terapêutica combinada nem sempre é comportável, obrigando muitas vezes à prescrição separada dos fármacos.</p>
<p>56,7% dos utentes com diabetes tipo 1 avaliados pelo SCORE2-Diabetes foram classificados num nível de risco cardiovascular inferior ao atribuído pelo SCORE, um resultado “inesperado” e, garante André Cunha, inédito neste contexto. Ao contrário do que aconteceu em estudos com população não diabética, nos quais a transição do SCORE para o SCORE2 levou tendencialmente a reclassificações para níveis de risco superiores, neste caso verificou-se o oposto.</p>
<p>A conclusão reforça a importância de calcular o risco cardiovascular com ferramentas adequadas e específicas para pessoas com diabetes antes de definir terapêuticas. Esse passo deve integrar a prática clínica regular, permitindo envolver melhor os doentes na gestão da doença e ajustar de forma progressiva a terapêutica hipolipemiante até atingir os objetivos recomendados pelas guidelines mais recentes.</p>
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		<item>
		<title>Rastreio do cancro da próstata em Portugal: conhecimentos, práticas e atitudes dos médicos de família e dos urologistas</title>
		<link>https://mediconews.pt/rastreio-do-cancro-da-prostata-em-portugal-conhecimentos-praticas-e-atitudes-dos-medicos-de-familia-e-dos-urologistas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rita Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jul 2026 11:16:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://mediconews.pt/?p=46425</guid>

					<description><![CDATA[<p>Num artigo de opinião, a médica de Medicina Geral e Familiar (MGF) <strong>Raquel Braga</strong>, da Unidade Local de Saúde (ULS) de Matosinhos, analisa a complexidade do rastreio do cancro da próstata em Portugal, tendo como ponto de partida os resultados do recente estudo Prostate Cancer Screening: Knowledge, Attitudes, and Practices by Medical Doctors in Portugal, do qual faz parte. A autora explica como a mudança de paradigma internacional, que se afasta do rastreio cego para privilegiar a decisão partilhada e o risco individual, tem impactado a prática clínica, revelando assimetrias de conhecimentos e atitudes entre médicos de MGF e urologistas. Colocando a comunicação clínica no centro do processo, a médica reflete sobre os desafios de alinhar as novas orientações europeias com a realidade nacional, sublinhando que a melhor decisão resultará sempre do encontro entre a evidência científica, a experiência do profissional e os valores do doente.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://mediconews.pt/rastreio-do-cancro-da-prostata-em-portugal-conhecimentos-praticas-e-atitudes-dos-medicos-de-familia-e-dos-urologistas/">Rastreio do cancro da próstata em Portugal: conhecimentos, práticas e atitudes dos médicos de família e dos urologistas</a> aparece primeiro em <a href="https://mediconews.pt">Médico News</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O rastreio do cancro da próstata mantém-se um dos temas mais debatidos da medicina contemporânea, desde o início da utilização do PSA como exame de rastreio, na década de 80. Poucas áreas da prevenção oncológica suscitam tanta controvérsia quanto às recomendações internacionais, às decisões clínicas e às expectativas dos médicos e dos doentes. Em Portugal, onde o cancro da próstata constitui a neoplasia maligna mais frequentemente diagnosticada em homens e uma das principais causas de mortalidade por cancro, esta discussão assume particular relevância.</p>
<p>Durante décadas, a determinação do antigénio específico da próstata (PSA) difundiu-se rapidamente na prática clínica, apesar de não haver consenso quanto ao equilíbrio entre os seus benefícios e riscos. Se, por um lado, permitiu o diagnóstico precoce de milhares de tumores potencialmente curáveis, por outro, conduziu ao sobrediagnóstico e ao sobretratamento de lesões indolentes, expondo muitos homens a intervenções desnecessárias e às respetivas complicações. Num estudo representativo da população portuguesa, 44,2% dos homens entre os 40 e os 79 anos referiram ter realizado rastreio do cancro da próstata pelo menos uma vez na vida, evidenciando uma elevada utilização do rastreio oportunístico.1</p>
<p>Atualmente, o paradigma internacional encontra-se em transformação. As recomendações das principais sociedades científicas evoluíram de uma posição de aceitação ou rejeição generalizada para uma abordagem centrada na decisão partilhada entre médico e doente, considerando a idade, a esperança de vida, os fatores de risco individuais e as preferências de cada pessoa. Paralelamente, a União Europeia tem vindo a incentivar os Estados-Membros a desenvolver programas organizados e baseados no risco, recorrendo às novas evidências científicas e aos avanços tecnológicos, como a ressonância magnética multiparamétrica antes da realização de biópsia, o que pode ajudar a mitigar os efeitos do sobrediagnóstico e do sobretratamento.</p>
<p>Contudo, permanecem questões essenciais: os médicos portugueses estarão preparados para esta mudança de paradigma? Como se caracterizam os conhecimentos práticos e atitudes dos médicos de família e urologistas (especialidades que mais frequentemente lidam com esta situação) em relação a este rastreio?</p>
<p>Foi precisamente desta inquietação que surgiu o estudo “Prostate Cancer Screening: Knowledge, Attitudes, and Practices by Medical Doctors in Portugal”, recentemente publicado no Journal of Cancer Education. O objetivo foi conhecer, pela primeira vez em Portugal, como os médicos compreendem, interpretam e aplicam as recomendações relativas ao rastreio do cancro da próstata.</p>
<p>O estudo envolveu investigadores de várias instituições nacionais, incluindo especialistas em Medicina Geral e Familiar, Saúde Pública, Epidemiologia e Urologia, o que reflete a natureza multidisciplinar desta problemática. A investigação assentou num estudo observacional transversal, realizado por meio de um questionário online dirigido a médicos portugueses das especialidades de Medicina Geral e Familiar (n=596) e Urologia (n=63), enviado por email, através das respetivas Sociedades Científicas (Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar e Associação Portuguesa de Urologia), o que permitiu caracterizar simultaneamente os conhecimentos, as atitudes e a prática clínica relativamente ao rastreio.</p>
<p>Mais do que medir conhecimentos e opiniões, procurou compreender de que forma as recomendações internacionais e nacionais chegam à prática clínica quotidiana.</p>
<p>Os resultados revelam um cenário simultaneamente positivo e profundamente desafiante.</p>
<p>Por um lado, verifica-se um elevado reconhecimento da importância do diagnóstico precoce do cancro da próstata e da necessidade de envolver os doentes na decisão clínica. A maioria dos médicos demonstra preocupação em fornecer informação aos homens antes da realização do PSA e reconhece que esta decisão deve resultar de um processo de decisão informada e partilhada.</p>
<p>Determinou-se que, em Portugal, os médicos de família preferem adotar as normas de orientação clínica da Direção-Geral de Saúde, ao passo que os urologistas preferem seguir as normas da European Association of Urology.  Observam-se variações entre estas duas especialidades quanto aos critérios relativos à idade ideal para iniciar ou terminar o rastreio, bem como alguma heterogeneidade no reconhecimento dos fatores de risco familiares, étnicos e de idade. Além disso, o estudo revela que os urologistas são mais interventivos e acreditam mais nos benefícios do rastreio do cancro da próstata do que os médicos de família.</p>
<p>Estes resultados refletem um fenómeno conhecido internacionalmente: mesmo quando existem recomendações clínicas bem estabelecidas, a sua implementação clínica nem sempre é uniforme e depende do contexto de prática. A evidência científica é dinâmica; as orientações nem sempre coincidem entre sociedades científicas e, perante a incerteza, muitos médicos continuam naturalmente a basear parte das suas decisões na formação inicial, na experiência clínica acumulada e nas recomendações locais.</p>
<p>Este facto não deve ser interpretado como uma fragilidade da prática médica, mas antes como um sinal da complexidade inerente ao rastreio do cancro da próstata.</p>
<p>Ao contrário do rastreio do colo do útero, da mama ou do cancro colorretal, onde existe maior consenso relativamente aos programas organizados, o rastreio do cancro da próstata continua dependente de uma avaliação individualizada, exigindo competências de comunicação clínica particularmente desenvolvidas.</p>
<p>É precisamente aqui que os cuidados de saúde primários assumem um papel determinante, uma vez que um dos principais fatores de adesão a um rastreio reside na possibilidade de abordar o assunto com o médico com quem se estabelece uma relação de confiança.</p>
<p>Em Portugal, os médicos de família constituem frequentemente o primeiro profissional de saúde a abordar este tema com os homens assintomáticos. São eles que esclarecem dúvidas, interpretam fatores de risco, discutem as vantagens e limitações do PSA e acompanham as decisões tomadas e suas consequências ao longo do tempo. A qualidade desta comunicação poderá influenciar significativamente a adequação do rastreio realizado.</p>
<p>Os resultados agora publicados sugerem igualmente a necessidade de reforçar a formação médica contínua nesta área. Num contexto científico em rápida evolução, torna-se fundamental garantir que todos os profissionais tenham acesso às recomendações mais recentes, compreendam a qualidade da evidência disponível e desenvolvam competências em decisão partilhada. Não basta conhecer as normas; é necessário traduzir a evidência numa conversa clara, equilibrada e adaptada às preferências de cada doente.</p>
<p>Este desafio ganha ainda maior importância perante as recentes orientações europeias.</p>
<p>Em 2022, o Conselho da União Europeia recomendou aos Estados-Membros que explorassem a implementação faseada de programas organizados de deteção precoce do cancro da próstata (além do cancro do estômago e do pulmão), baseados na estratificação do risco individual e apoiados por evidência científica robusta. Trata-se de uma mudança histórica, que poderá transformar profundamente a abordagem ao rastreio nos próximos anos.</p>
<p>Portugal terá inevitavelmente de acompanhar esta evolução.</p>
<p>Para tal, será indispensável conhecer não apenas a evidência científica internacional, mas também a realidade nacional: como pensam os médicos, quais as dificuldades encontradas na prática clínica, quais as barreiras à implementação das recomendações e quais as necessidades de formação existentes.</p>
<p>Este estudo adquire particular relevância ao fornecer uma caracterização nacional das atitudes e práticas médicas das especialidades que mais frequentemente lidam com este rastreio, disponibilizando informação essencial para orientar políticas de saúde, desenvolver estratégias de formação e preparar recomendações futuras ajustadas ao contexto português.</p>
<p>Num sistema de saúde que procura simultaneamente melhorar os resultados em saúde, reduzir desperdícios e reforçar a centralidade do doente, esta perspetiva torna-se indispensável.</p>
<p>O futuro do rastreio do cancro da próstata não dependerá apenas de novos biomarcadores, de algoritmos de inteligência artificial ou de exames de imagem mais sofisticados. Dependerá igualmente da qualidade da comunicação entre médico e doente, da confiança nas recomendações científicas e da capacidade de adaptar a evidência às características individuais de cada homem. Dependerá também da capacidade de se montar em Portugal um programa de rastreio confiável, sustentável e seguro, que, assim que levantar uma suspeita de cancro da próstata, estabeleça rapidamente um diagnóstico e assegure um tratamento rápido e eficaz.</p>
<p>Este estudo recorda-nos que a melhor decisão clínica raramente resulta apenas de um exame laboratorial. É aquela que nasce do encontro entre a melhor evidência científica disponível, a experiência do médico e os valores do doente, segundo o paradigma da Medicina Baseada na Evidência.</p>
<p>A presente investigação integra uma tese de doutoramento intitulada “Prostate Cancer Screening in Portugal: Adherence, Practices, and Views from Different Stakeholders”, composta por quatro estudos. Este estudo analisou os conhecimentos, atitudes e práticas clínicas de médicos de família e urologistas portugueses relativamente ao rastreio do cancro da próstata. Os restantes estudos avaliaram: (1) a utilização do rastreio e os conhecimentos, atitudes e práticas da população masculina portuguesa;1 (2) a associação entre características dos doentes com cancro da próstata e o estádio da doença ao diagnóstico;2 e (3) as barreiras, facilitadores e perspetivas dos diferentes intervenientes sobre a implementação e gestão de programas de rastreio em Portugal.3</p>
<p>Num momento em que Portugal e a Europa repensam o futuro do rastreio do cancro da próstata, compreender como os médicos decidem e se posicionam poderá ser tão importante quanto desenvolver novas formas de diagnóstico precoce ou planear formas éticas, seguras e sustentáveis de implementar programas de rastreio. A ciência produz evidências, mas é a prática clínica que as transforma em ganhos efetivos para a saúde das populações.</p>
<p>Aceda ao artigo na íntegra <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40533657/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</p>
<p><strong>Referências Bibliográficas:</strong></p>
<p>1-Braga R, Costa AR, Pina F, Moura-Ferreira P, Lunet N. Prostate cancer screening in Portugal: prevalence and perception of potential benefits and adverse effects. Eur J Cancer Prev. 2020 May;29(3):248-251. doi: 10.1097/CEJ.0000000000000539. PMID: 31651568.</p>
<p>2- Braga R, Araújo N, Costa A, Lopes C, Silva I, Correia R, Carneiro F, Braga I, Pacheco-Figueiredo L, Oliveira J, Morais S, Tedim Cruz V, Pereira S, Lunet N. Association between sociodemographic and clinical features, health behaviors, and health literacy of patients with prostate cancer and prostate cancer prognostic stage. Eur J Cancer Prev. 2024 May 1;33(3):243-251. doi: 10.1097/CEJ.0000000000000854. Epub 2023 Nov 6. PMID: 37997910.</p>
<p>3- Fernandes A, Braga R, Taveira-Barbosa J, Amorim M, Firmino-Machado J, Lunet N. Challenges and enablers in the implementation of screening programs for lung, prostate and gastric cancers in Portugal: A qualitative study involving stakeholders. SSM-Health Systems. Volume 7, December 2026, 100237. https://doi.org/10.1016/j.ssmhs.2026.100237</p>
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		<title>O fim da era CLEOPATRA? Novas opções na primeira linha do cancro da mama HER2+ avançado</title>
		<link>https://mediconews.pt/o-fim-da-era-cleopatra-novas-opcoes-na-primeira-linha-do-cancro-da-mama-her2-avancado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Joana Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 09:02:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Num artigo de opinião assinado por <strong>Gonçalo Fernandes</strong>, médico oncologista no Hospital da Luz Lisboa e de Setúbal, é analisada a transição histórica que o tratamento de primeira linha do cancro da mama metastático HER2+ está a viver com o potencial fim da "era CLEOPATRA", o regime triplo que foi o padrão de cuidados durante mais de uma década. O aparecimento de novos dados clínicos — como a substituição da quimioterapia clássica por anticorpos conjugados e a otimização das estratégias de manutenção com inibidores específicos — abre um novo capítulo na Oncologia mamária. Contudo, o especialista alerta que estes avanços trazem a necessidade de uma análise crítica sobre os ensaios, desenhando um futuro onde a verdadeira diferenciação residirá na complexa individualização terapêutica.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O tratamento de primeira linha do cancro da mama metastático HER2+ atravessa uma transição histórica. Durante mais de uma década, o regime estabelecido pelo ensaio CLEOPATRA, combinando taxano, trastuzumab e pertuzumab (THP), constituiu o <em>standard</em> de tratamento. Contudo, uma proporção relevante de doentes apresenta resposta subótima ou progressão precoce, e nem todos chegam a beneficiar de linhas subsequentes.</p>
<p>O ensaio DESTINY-Breast09 desafia este paradigma ao avaliar uma estratégia de substituição da quimioterapia clássica por trastuzumab deruxtecan (T-DXd). A combinação T-DXd e pertuzumab atingiu uma mediana de sobrevivência livre de progressão (PFS) de 40,7 meses, comparativamente a 26,9 meses com THP, com uma redução de 44% no risco de progressão ou morte, e com quase duplicação das taxas de resposta completa (15,1% vs. 8,5%). Contudo, estes ganhos exigem uma vigilância clínica cuidadosa, atendendo à incidência de doença pulmonar intersticial, observada em 12,1% dos doentes no braço experimental.</p>
<p>Em paralelo, duas estratégias de manutenção exploram a otimização após indução com THP. O ensaio PATINA demonstrou que a adição de palbociclib à manutenção com anti-HER2 e hormonoterapia prolonga a PFS de 29,1 para 44,3 meses na população RH positiva (RH+). Já o HER2CLIMB-05 mostrou que o tucatinib aumenta a PFS na fase de manutenção de 16,3 para 24,9 meses, com aparente maior sinal de benefício no subgrupo RH negativo (RH-) e com benefício em PFS intracraniana (8,5 vs. 4,3 meses em doentes com metástases cerebrais).</p>
<p>A interpretação destes resultados exige cautela. As medianas de PFS não são diretamente comparáveis: o DESTINY-Breast09 inicia a contagem no início da primeira linha, enquanto PATINA e HER2CLIMB-05 apenas após indução com quimioterapia. Este desenho pode introduzir viés de seleção, ao incluir preferencialmente doentes com resposta inicial e potencialmente melhor prognóstico. Adicionalmente, o uso heterogéneo de hormonoterapia (HT) pode ter influenciado os resultados. No DESTINY-Breast09, a HT foi administrada em apenas 13,5% dos doentes RH+ no braço T-DXd+P, comparativamente a 38,3% no braço THP. No HER2CLIMB-05, menos de metade dos doentes RH+ recebeu terapêutica endócrina, levantando a hipótese de que os resultados possam ter sido influenciados por um bloqueio endócrino subótimo.</p>
<p>Num futuro próximo, o verdadeiro desafio será a individualização terapêutica, selecionando o tratamento certo para o doente certo entre estratégias cada vez mais eficazes e complexas, e definindo quem beneficiará de intensificação terapêutica e quem poderá ser melhor tratado com estratégias de manutenção otimizadas e menor toxicidade cumulativa.</p>
<p><em>Este artigo foi publicado originalmente no Jornal do Congresso dedicado aos Encontros da Primavera 2026. </em></p>
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